Estudantes de SC apresentam pesquisa na maior feira de ciências do mundo

   

 

Foto Carlos Junior - Notícias do Dia|

Estudo foi selecionado entre 13 mil projetos e os autores participarão de uma comitiva com 30 brasileiros

Letícia Mathias (Florianópolis)

Dois jovens catarinenses transformaram uma observação de uma comunidade local em um projeto científico e agora estão entre os 30 estudantes brasileiros que participarão da Intel ISEF (International Science and Engineering Fair), uma das feiras internacionais pré­universitárias mais importantes do mundo, nos Estados Unidos, que começa neste domingo e vai até a próxima sexta­feira. Ao todo, participarão mais de 1.700 estudantes do ensino médio de mais de 70 países.

Maurício Antonio Goetten, 18, e Afonso Bosse, 18, estudantes do curso técnico química do IFSC em Jaraguá do Sul, levarão o trabalho sobre o impacto ambiental da pesca artesanal motorizada do camarão sete­barbas em Penha, e poderão concorrer a mais de US$ 4 milhões em prêmios e bolsas de estudos, além de participar de palestras e workshops com cientistas de diferentes lugares do mundo, ganhadores do prêmio Nobel.

A dupla observava que após a pesca dos camarões sete­barbas na cidade de Penha, litoral norte de Santa Catarina, as pequenas embarcações voltavam com os camarões, mas também traziam junto outras espécies de peixes e moluscos mortos que não tinham tanto valor comercial e depois eram descartados no mar. “Aí surgiu pergunta da pesquisa, qual o impacto ambiental da pesca do camarão sete barbas, que vem desde a Carolina do norte até o litoral sul do Brasil?”, conta Goetten.

Durante praticamente um ano, entre agosto de 2013 e julho de 2014, eles pesquisaram o assunto, fizeram coletas mensais em diferentes profundidades usando um barco da frota local e conseguiram catalogar 16.914 exemplares de 56 espécies de animais que vinham junto com a pesca do camarão. Com isso foi possível comprovar que a cada 1kg de camarão pescado, vinham junto 6kg de peixe e outras espécies, deixando evidente o impacto desta pesca sobre a fauna acompanhante. A captura dos peixes supera em mais de seis vezes a espécie alvo da pesca que é o camarão.

Expectativa de encontrar e aprender com cientistas conceituados

Com essa proposta, os estudantes, sob orientação do professor Mário Sedrez e apoio do professor da Univalli Joaquim Branco, participaram da Mostratec (Mostra Internacional de Ciência e Tecnologia) realizada no Rio Grande do Sul e venceram. Foram mais de 13 mil projetos inscritos de 23 países diferentes e eles ganharam a primeira colocação na categoria de ciências animais. Como prêmio, além do troféu, conquistaram vaga para a Intel ISEF.

Para Bosse, foi uma surpresa. Ele diz que quando começou projeto não tinha noção de até onde ia chegar e quando recebeu a ligação dizendo que eles haviam sido campeões na Mostratec em outubro, evento que os credenciou para a Intel, quase não acreditou: “Eles me ligaram para contar que tínhamos vencido e eu pensei, como assim, vamos viajar para os Estados Unidos? Na hora nem soube como reagir. Agora que a gente terminou toda submissão doas artigos e a viagem está próxima que eu estou me dando conta da grandeza disso tudo”.

Eles já haviam participado de outras feiras, mas nunca com essa proporção e reconhecimento. Goetten concluiu o curso no fim do ano, Bosse, termina este semestre. Mas o futuro deles e do projeto pode mudar de acordo com o que ocorre na feira. Goetten diz que o prêmio para ele já é estar participando e podendo apresentar o projeto para o mundo, que não há expectativas além. Porém, se forem premiados, podem ganhar bolsas de estudo e prêmios em dinheiro para investir em projetos. “É um prêmio único para nós e para o IFSC, uma recompensa pela nossa dedicação e esforço. Para a vida profissional serve de incentivo para não deixar pesquisar”, afirma.

A avaliação nos estados Unidos não vai ser por qualquer cientista ou pesquisador, todos tem nível de doutorado, especialistas nas áreas que avaliam. “É a maior feira pré­universitária do mundo, sonho de qualquer pesquisador. Além da visibilidade, ganhamos toda essa carga de conhecimento dos avaliadores, poderemos conhecer metodologias de pesquisa do mundo inteiro”, diz o Bosse.

Segundo a gerente de educação da Intel do Brasil Fernanda Sato, a participação da delegação brasileira vem ganhando destaque ao longo dos anos na Intel ISEF, conquistando vários prêmios. Ela explica que para um projeto vencer passa por critérios como inovação, originalidade, aplicação e impacto do projeto para a sociedade: “Precisa ser original, algo que tenha um impacto positivo, que mude, facilite ou melhore a vida da sociedade. Esses projetos podem ter desde uma aplicação local, algo pensado para a comunidade do autor da pesquisa, a uma aplicação global”.

Em 2014 uma dupla de estudantes do Rio Grande do Sul ficou em segundo lugar na categoria de engenharia ­ materiais e bioengenharia, com o projeto chamado “MASE – Membrana de Absorção Seletiva” e ganharam US$1.500. Em reconhecimento ao feito, os mesmos estudantes receberam uma menção honrosa e seus nomes batizaram asteroides descobertos pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts. Fernanda diz que a disseminação da cultura científica é estratégica para o desenvolvimento do país e que vai além de formar cientistas, a proposta é ajudar a formar cidadãos antenados nos desafios sensíveis à vida local que ajudarão a solucionar problemas do seu entorno e outros desafios globais.

Projeto pretende auxiliar na criação de políticas públicas

Eles ressaltam que a intenção não é acabar com a atividade, considerada de extrema importância e sobrevivência de dezenas de famílias, mas sim trazer equilíbrio e medidas que evitem o problema ambiental. Goetten explica que foi feito um levantamento social, cultural e ambiental na região: “Se não tivermos medidas de aproveitamento desse material descartado, compromete a manutenção e estoque sobre a sobrevivência. O camarão tem maior valor comercial e há período de defeso que contempla o camarão, mas não contempla o período de desenvolvimento dessas outras espécies, é preciso criar normas para isso”.

Entre os fatores que eles acreditam que o fizeram vencer foi a pluralidade do projeto e possível aplicações em outros lugares até fora do país já que o camarão sete­barbas ocorre desde a Carolina do Norte, nos EUA, e tem proporção relevante na América. Agora, a dupla trabalha na continuação da pesquisa. Primeiro os estudantes precisavam comprovar o impacto, e fizeram isso por meio de medições e diferentes estações do ano e profundidade, agora estudam métodos que amenizem esse impacto.

O objetivo é dar subsídios e embasamento técnico­científico para adoção de políticas públicas para o manejo e conservação dos recursos marinhos e agora eles trabalham na continuidade do projeto em busca de propor um método para reduzir o impacto ambiental, promover ordenamento e aproveitamento da proteína animal que é descartada. Com a divulgação da pesquisa, a ideia é dar visibilidade ao assunto, à comprovação do impacto, e levar às comunidades pesqueiras e até ao Ministério da Pesca.

Bosse diz que não vai tomar decisões antes de participar da Intel: “É quase inacreditável ter um projeto reconhecido em uma feira tão grande e importante, foram dois anos de trabalho e agora estamos colhendo frutos. Vai ser um diferencial na minha aprendizagem. A experiência que é além da experiência acadêmica, abriu e ainda esta abrindo portas para nós”.

Veja a fonte - Notícias do Dia - ndonline

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